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Terrorismo econômico além de Ormuz: a outra rota que o Irã usa para estrangular o Ocidente

Dê de presentePrefira a Gazeta no GoogleNavio petroleiro atravessa o Estreito de Ormuz. (Foto: Ali Haider/EFE/EPA)Ouça este conteúdo

O Irã vem usando o bloqueio de importantes rotas de comércio marítimo como arma de terrorismo econômico mesmo antes do início da atual guerra com os Estados Unidos e Israel. Além de Ormuz, Teerã ameaça a passagem de navios no estreito de Bab El-Mandeb, no Mar Vermelho, que pode ser o próximo a ser fechado com ataques de drones e mísseis.

A estratégia de bloqueio de importantes vias marítimas desrespeita o direito internacional e pode levar a um colapso de cadeias de logística global se for adotada por outras nações.

Teerã bloqueou o Estreito de Ormuz, por onde escoava um quinto da produção mundial de petróleo e derivados, em abril deste ano e passou a cobrar pedágio para a passagem de embarcações civis (impedindo a passagem de navios ocidentais). Mas já vinha restringindo, desde 2023, a passagem de navios ocidentais por Bab El-Mandeb, no sul do Mar Vermelho.

Por lá passavam cerca de 30% do comércio mundial por navios de contêineres e 12% dos carregamentos marítimos de petróleo entre 2022 e 2023. Segundo a agência americana EIA (sigla de Administração de Informações de Energia), Bab El-Mandeb escoava 9,3 milhões de barris de petróleo por dia em 2023. Esse número caiu para 4,1 milhões em 2024.

A redução aconteceu depois que rebeldes Houthis, aliados do Irã, começaram a atacar navios civis com mísseis e drones, da mesma forma como ocorre no Estreito de Ormuz, que ganhou atenção global com a guerra deste ano.

As ações iranianas nos dois estreitos violam a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. Segundo analistas ouvidos pela reportagem, elas também abrem precedente para a subversão do Direito Internacional, de uma forma semelhante ao que a Rússia fez ao invadir a Ucrânia em 2022.

Desde o fim da Segunda Guerra, as nações haviam concordado por meio da Carta da ONU em não realizar guerras com o objetivo de expansão territorial. Dessa forma, as grandes guerras de conquista foram praticamente banidas por décadas. Mas Moscou abriu um precedente para a retomada da prática ao anexar províncias ucranianas. Ruanda seguiu o exemplo e invadiu o leste da República Democrática do Congo com forças rebeldes para anexar a região de Goma, no ano passado.

Agora outro ponto fundamental do Direito Internacional moderno está sendo desafiado. A liberdade de navegação foi proposta inicialmente em 1609 e ganhou força no século 19 com a ascensão da teoria do laissez-faire e do liberalismo econômico. A liberdade dos mares passou a ser garantida pelas grandes potências ocidentais. Primeiro a Grã-Bretanha e depois os Estados Unidos criaram poderosas marinhas de "mar azul", termo usado para designar capacidade de projetar poder globalmente.

Em 1994 entrou em vigor a Convenção das Nações Unidas sobre a Lei do Mar (designada pela sigla internacional UNCLOS). Os Estados Unidos não aderiram formalmente ao tratado, mas historicamente respeitam seus principais pontos, originados do direito costumeiro. E um deles é o direito de livre navegação e passagem aérea por estreitos como o de Ormuz e Bab El Mandeb.

"O interesse coletivo da navegação global tem que prevalecer. Imagine se todo mundo fosse cobrar pedágios. Se a Espanha fosse cobrar direito de passagem no Estreito de Gibraltar, o Iêmen em Bab El-Mandeb, a Malásia no Estreito de Malaca ou Singapura no estreito de Singapura. Isso seria o caos no comércio marítimo internacional. Temos que lembrar que a grande maioria dos produtos comercializados internacionalmente transita pelos mares", disse o coronel da reserva Paulo Filho, analista militar e colunista da Gazeta do Povo.

Segundo Cezar Roedel, doutor em Filosofia, mestre em Relações Internacionais, as ações do Irã quebraram a ideia de livre navegação. Elas podem encorajar outros países a adotar ações semelhantes. O presidente americano Donald Trump chegou a cogitar uma cobrança de taxas para manter a segurança no Estreito de Ormuz, mas descartou a ideia. A China tem aumentado as restrições de navegação no mar ao sul de seu território com manobras de barcos civis e pode intensificar esse tipo de ação. O país já constrói ilhas artificiais para tentar aumentar seu espaço de mar territorial.

Ormuz hoje, Taiwan amanhã: os gargalos da economia globalAs lições estratégicas do bloqueio no Estreito de OrmuzPiratas voltam a ameaçar comércio marítimo após bloqueios no Oriente MédioIrã ameaçou duas vezes fechar completamente Bab El-MandebEm meio a um frágil cessar-fogo entre Irã, EUA e Israel, o estreito de Hormuz permanece fechado. Em paralelo, autoridades iranianas ameaçaram pela segunda vez em menos de dois meses fazer um bloqueio total também em Bab El-Mandeb.

A primeira ameaça ocorreu no dia 7 de abril, momentos antes de Washington e Teerã concordarem com um cessar-fogo. A segunda foi em 1 de junho, quando o Irã disse que se retiraria da mesa de negociações por causa de ataques israelenses ao Líbano.

O Estreito de Bab El Mandeb fica entre o Iêmen, situado na península arábica, e o Djibuti e a Eritreia, no Chifre da África. Também conhecido como "Portal das Lágrimas", Bab El-Mandeb é a passagem de entrada ao sul do Mar Vermelho. Ao norte, a passagem entre o Mar Vermelho e o Mar Mediterrâneo é o Canal de Suez, no Egito.

Ele tem 30 quilômetros de largura (Ormuz tem 40 quilômetros) e está ao alcance de drones aéreos e marítimos lançados por rebeldes aliados do Irã tanto no Iêmen quanto do Djibuti. Eles fazem parte do chamado Eixo da Resistência, junto com terroristas do Hamas e do Hezbollah.

As maiores empresas de transporte marítimo, como a Maersk, já vinham dando preferência desde 2023 à rota que contorna o continente africano para evitar o Mar Vermelho. Mas a viagem se torna de duas a três semanas mais longa. Com o início da guerra do Irã, as transportadoras ocidentais praticamente suspenderam a passagem de seus navios por Bab El-Mandeb.

De acordo com Cezar Roedel, a necessidade de mudar de rota gerou não só um tempo maior de viagem das mercadorias, mas mudou o custo com seguradoras e resseguradoras e aumentou os custos gerais de navegação. "Isso acabou remodelando e a cadeia global em conjunto com o fechamento de Ormuz e afetou até o Brasil, que depende de cadeias logísticas para comprar combustível e vender os produtos do agronegócio", disse.

Durante a guerra Irã-Iraque (1980-1988), forças iranianas e iraquianas lançaram minas navais e bombardearam navios que operavam no Golfo Pérsico. Os Estados Unidos organizaram comboios militares para escoltar embarcações pela região e através do Estreito de Ormuz. Uma fragata americana foi atingida por uma mina submarina e outra foi bombardeada por um avião de caça.

O estreito não chegou a ser completamente fechado. Mas desde então a tecnologia e o cenário do comércio global evoluíram. Hoje interditar um estreito por ações militares é relativamente mais fácil e o impacto no comércio global é maior.

Drones marítimos e navais de baixo custo, mísseis antinavio e radares de monitoramento costeiro, além das conhecidas minas navais, permitem que países mais fracos desafiem nações mais fortes.

Foi isso que começou a acontecer em 2023, depois que terroristas do Hamas lançaram um ataque surpresa contra Israel que deixou centenas de mortos e reféns e deflagrou uma guerra em outubro daquele ano. Rebeldes Houthi passaram então a usar esse tipo de armamento para atacar navios civis em Bab El-Mandeb e apoiar o Hamas.

Ao assumir a presidência em 2025, uma das primeiras ações militares de Trump foi ordenar um bombardeio no Iêmen para reduzir as capacidades militares dos Houthi, mas eles não foram totalmente desarmados e desmobilizados. Em paralelo, Washington exerceu pressão sobre o Panamá para expulsar empresas a China que operavam no Canal do Panamá, outra passagem marítima estratégica.

Mas, segundo analistas internacionais, os EUA subestimaram a capacidade do Irã de fechar o Estreito de Ormuz quando iniciaram o bombardeio ao país em fevereiro desde ano. Segundo Roedel, para forçar a abertura do estreito militarmente, fazer comboios para escolta de navios não seria suficiente. Os EUA teriam que fazer uma invasão terrestre na região e lutar com o exército iraniano. A opção poderia levar à perda de milhares de combatentes sem garantia de sucesso.

O que está em jogo é a luta contra o terrorismo econômico iraniano. O fechamento de Ormuz por Teerã fez o petróleo chegar ao preço de US$ 117 por barril no auge da crise. A retenção de 20% do fluxo global da commodity na região fez o Fundo Monetário Internacional (FMI) projetar para este ano uma queda de 0,3% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial. Mas essa é uma estimativa conservadora que leva em conta a reabertura iminente do estreito.

Análises mais pessimistas apontam que o crescimento do PIB mundial pode cair de 3,4% em 2025 para 2% em 2026. Isso pode levar uma grande quantidade de países mais frágeis a um cenário econômico desesperador.

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