Aliada de Lula, Espanha se afasta dos EUA e tenta ser ponte entre China e União Europeia
Dê de presentePremiê espanhol, Pedro Sánchez, conversa com o ditador chinês Xi Jinping, durante viagem à China (Foto: EFE/EPA/ANDRES MARTINEZ CASARES / POOL)Ouça este conteúdo
Em sua quarta visita a Pequim em quatro anos, o primeiro-ministro socialista da Espanha, Pedro Sánchez, voltou para casa com acordos comerciais, o reconhecimento do ditador Xi Jinping como interlocutor privilegiado entre a China e a União Europeia (UE) e uma mensagem sobre de que lado Madri escolheu ficar neste momento da história.
Aliado próximo do presidente Lula, o premiê espanhol tem adotado, nos últimos meses, uma estratégia de afastamento dos Estados Unidos, posicionando-se como um dos principais críticos do governo de Donald Trump no continente europeu.
Após se reunirem em julho de 2025 em Santiago, no Chile, onde Sánchez, Lula e outros líderes de esquerda da América Latina firmaram uma declaração conjunta contra o que chamaram de avanço da “extrema-direita” e do “autoritarismo” global, os dois líderes voltaram a se encontrar nesta sexta-feira (17) em Barcelona.
Em sua passagem pela Espanha, Lula também deve participar do evento socialista Global Progressive Mobilisation ao lado de Sánchez e dos presidentes esquerdistas da Colômbia, Gustavo Petro, e do México, Claudia Sheinbaum. O evento em questão é promovido pela Internacional Socialista e pelo Partido dos Socialistas Europeus.
No encontro bilateral realizado no Grande Salão do Povo, em Pequim, o ditador Xi Jinping elogiou a Espanha como um país que age “com retidão moral” e declarou que Madri e a China estão “no lado certo da história”.
A declaração soou como endosso direto à postura de Sánchez diante da guerra no Irã e das pressões de Trump. Xi também reconheceu Sánchez como canal privilegiado de diálogo entre Pequim e Bruxelas.
O premiê espanhol abraçou o papel que lhe foi descrito pelo líder chinês e defendeu uma “relação UE-China baseada na confiança, no diálogo e na estabilidade”.
Sánchez também defendeu a ideia de “uma ordem multipolar a partir do respeito e do pragmatismo”. O premiê espanhol já havia dito anteriormente que o mundo já não gira em torno do Ocidente.
A China se tornou nos últimos anos o maior parceiro comercial da Espanha fora da União Europeia, e a Espanha é vista por Pequim como uma importante aliada dentro do bloco europeu.
De acordo com dados da Administração Geral de Alfândegas da China, o comércio bilateral entre os dois países superou os US$ 55 bilhões (cerca de R$ 275 bilhões, na cotação mais recente) em 2025, com crescimento de 9,8% em relação ao ano anterior. Além disso, empresas chinesas têm ampliado seus investimentos na Espanha em setores como baterias, energia renovável e infraestrutura, movimento que o governo espanhol vê como estratégico para impulsionar sua reindustrialização.
Durante a visita de Sánchez a Pequim, foram assinados 19 acordos bilaterais, dez deles na área econômica, incluindo protocolos para expandir exportações agrícolas espanholas ao mercado chinês, cooperação em transporte e infraestrutura e o lançamento de um Mecanismo de Diálogo Estratégico Diplomático entre os dois países.
Para Marco Aurélio da Silva, consultor em negócios internacionais e professor de Relações Internacionais no Centro Universitário da Serra Gaúcha (FSG), Sánchez está fazendo neste momento “um movimento calculado dentro de um tabuleiro geopolítico extremamente volátil em 2026”.
À Gazeta do Povo, o analista disse que a aproximação de Madri com Pequim é “predominantemente um cálculo de pragmatismo estratégico, motivado pela necessidade de sobrevivência econômica e estabilidade diplomática”.
Sánchez veria em Trump, de acordo com o analista, “um parceiro não confiável” e, diante de um governo americano que “impõe tarifas e ignora acordos bilaterais”, busca na China um “contrapeso” para garantir mercados às exportações espanholas e atrair investimentos em setores estratégicos.
A aproximação com a China ocorre em paralelo a um atrito de Sánchez com o governo dos Estados Unidos. A Espanha foi o único membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) a votar publicamente contra a demanda de Trump para que os países da aliança destinassem 5% do Produto Interno Bruto (PIB) à defesa – posição que a Casa Branca classificou como hostil.
A meta acabou sendo aprovada, mas a Espanha é o único país da Otan que não demonstra esforços concretos para alcançar essa porcentagem de investimento, o que alimenta a percepção em Washington de que o país europeu neste momento é um aliado pouco confiável.
A tensão Espanha-EUA se agravou com a guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã. Nas semanas seguintes ao início do conflito, Washington exigiu o uso das bases militares compartilhadas de Rota e Morón, na Espanha, para operações contra o regime islâmico. Mas Sánchez recusou a exigência de forma categórica. Em resposta, Trump chamou a Espanha de “perdedora” e ameaçou um embargo comercial contra o país.
No decorrer da guerra, que atualmente está sob cessar-fogo, o governo espanhol fez diversas críticas aos EUA e a Israel.
Analistas internacionais afirmam que os posicionamentos de Sánchez podem colocar em xeque a união dentro da Otan e atrair punições para Madri.
“A Espanha está provando diariamente que não é uma aliada confiável. Quando a poeira do conflito com o Irã baixar, a Otan vai precisar descobrir uma forma de lidar com isso, se realmente quiser manter os Estados Unidos na aliança”, afirmou Ilan Berman, vice-presidente do think tank American Foreign Policy Council.
Marco Aurélio da Silva avalia que a rota de colisão com os EUA traz riscos concretos para Madri, sendo o mais grave deles a possibilidade de isolamento dentro da Otan: o governo americano poderia colocar a Espanha “na lista negra da Casa Branca”, com possível “perda de cooperação em inteligência”.
Há ainda o risco, diz o analista, de Madri se tornar “um pária dentro da própria UE”, caso sua aproximação com Pequim seja vista pelos parceiros europeus como “uma traição à segurança atlântica”.
A Espanha, contudo, não foi o único aliado europeu alvo de críticas de Trump durante o conflito no Oriente Médio. Outros países do continente, como Reino Unido, Alemanha e França, estes dois últimos também integrantes da UE e da Otan, foram pressionados por Washington a ampliar o apoio logístico e militar durante as operações contra o regime islâmico.
Essas nações igualmente resistiram às pressões americanas e se tornaram alvo de críticas da Casa Branca, aprofundando um distanciamento entre Washington e seus aliados europeus que já vinha ocorrendo desde o início do governo Trump, crítico das políticas migratórias e das leis de moderação de conteúdo digital da União Europeia.
Diante do crescente distanciamento entre a União Europeia e os Estados Unidos, Sánchez aproveitou sua recente viagem à China para defender uma reaproximação estratégica entre Bruxelas e Pequim.
Durante a agenda no país asiático, o líder socialista espanhol buscou vender a China como um parceiro “estável” e “confiável” para os europeus, em contraste com o cenário de crescente “imprevisibilidade” por parte dos Estados Unidos. Sánchez é um dos poucos líderes europeus que vê a China como um aliado verdadeiramente confiável para a UE.
Apesar do discurso de aproximação do premiê espanhol, a União Europeia como bloco ainda enxerga a China com desconfiança. A própria Comissão Europeia, braço executivo da UE, define a relação com Pequim de forma tripartite: parceira, competidora e “rival sistêmica”. Os desequilíbrios comerciais e tensões tecnológicas entre os dois lados sustentam essa visão.
O déficit comercial da UE com a China atingiu 305,8 bilhões de euros (R$ 1,8 trilhão, na cotação mais atual) em 2024, o segundo maior da história do bloco. Líderes europeus têm cobrado publicamente a China por um reequilíbrio na relação.
Há também uma disputa comercial em curso. A UE possui tarifas em vigor contra veículos elétricos chineses produzidos fora do bloco europeu por políticas consideradas “distorcivas e geradoras de supercapacidade”.
O distanciamento entre Pequim e a UE também ocorre na questão tecnológica. A Comissão Europeia tem pressionado para tornar obrigatória a exclusão de equipamentos das chinesas Huawei e ZTE das redes de telecomunicações dos países membros, temendo operações de ciberespionagem e interferência de Pequim. Atualmente, a exclusão é opcional para os países membros do bloco europeu.
Recentemente a Alemanha, que por anos resistiu à ideia de barrar as gigantes chinesas de tecnologia das telecomunicações do país em nome dos laços comerciais com Pequim, anunciou que substituirá componentes chineses em sua rede 5G e não permitirá a presença de Pequim na futura rede 6G do país. Em fevereiro, o chanceler alemão Friedrich Merz viajou a Pequim com um discurso de recalibração comercial entre a Europa e a China, pedindo regras mais justas, transparência e fim das práticas industriais que distorcem o comércio global.
Em entrevista à AFP, Claudio Feijoo, especialista em China na Universidad Politécnica de Madrid, disse que Pequim vê a Espanha como um parceiro estrategicamente valioso neste momento para cultivar suas relações com a Europa e reaproximar os dois lados.
Para Marco Aurélio da Silva, porém, o peso de Sánchez dentro do bloco europeu é “limitado, embora não desprezível”. O analista observa que o premiê espanhol lidera um grupo de países, principalmente do sul da Europa, que temem o protecionismo e defendem o diálogo com Pequim para evitar “uma guerra comercial de duas frentes”.
Ainda assim, completa, dificilmente Sánchez conseguirá “convencer o bloco a ver a China como uma aliada plena no sentido de segurança”, mantendo a relação no campo da “parceria econômica necessária”.
Censura avança na EuropaPolítica externa brasileira ajuda a entender por que somos subdesenvolvidosTrump alerta Otan sobre “futuro muito ruim” se aliados não ajudarem os EUA no IrãVocê pode se interessarSTF julga Malafaia no dia 28 por injúria e calúnia a generais do ExércitoMultas de Moraes a caminhoneiros superam valores da Lava JatoA "revolução" do prefeito de Nova York se depara com a realidadeAdvogados renunciam no caso das crianças de Arroio GrandeDeixe sua opinião
EnviarPrincipais Manchetes“Terrabras”: Governo Lula articula criação de nova estatal para explorar terras rarasGilmar Mendes reclama dos “ingratos”Irã anuncia a volta da interdição do Estreito de OrmuzRede de lavagem de R$ 39 bilhões foi a maior descoberta da CPMI do INSS, diz relatorTudo sobre:
WhatsappTelegramWHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.